Como o desenho sonoro virou uma ferramenta estratégica de construção de marca?

Ter uma identidade sonora sem elegância e uma estratégia bem aplicada, é como ter uma Ferrari na garagem sem ninguém que saiba dirigir. É preciso sensibilidade e visão de médio prazo para criar e aplicar um som que traga os públicos para perto da marca.

Voz, trilhas,temas musicais, playlists, sound design, paisagens sonoras e logotipos sonoros são ativos poderosos. Mas seu verdadeiro valor surge quando fazem parte de uma estratégia integrada, capaz de criar coerência, fortalecer a identidade da marca e proporcionar experiências memoráveis.

Existe um toque de celular que já foi ouvido em média 1.8 bilhão de vezes por dia ao redor do mundo: o toque da Nokia. Julian Treasure, autor de livros como “Sound Business” e palestrante de cinco TED Talks sobre o tema, costuma lembrar esse exemplo para provar um ponto simples: aquele som não custou nada à marca depois de criado, e ainda assim se tornou um dos logotipos sonoros mais reconhecidos do planeta.

Um logotipo precisa ser visto para ser lembrado. Um logotipo sonoro pode ser reconhecido em menos de dois segundos, mesmo de olhos fechados, mesmo distraído, mesmo dentro do bolso.

Esse poder de reconhecimento é o ponto de partida para entender por que o Sound Branding deixou de ser um detalhe estético e passou a ser tratado como investimento estratégico.

Estudos citados com frequência pelo mercado, com base em levantamentos do Kantar BrandZ, apontam que:

"O som bem desenhado pode aumentar em até 76% o brand power de uma marca e melhorar em até 98% a retenção de memória associada a ela"

Kantar BrandZ

Outros levantamentos do setor indicam que o som pode ter até cinco vezes mais impacto no reconhecimento de marca do que estímulos puramente visuais.

São números que fariam qualquer diretor de marketing prestar atenção, mas eles só fazem sentido quando entendemos o motivo por trás deles: o som chega ao cérebro por um caminho mais rápido e mais emocional do que a imagem.

Elegância Sonora

O que a elegância tem a ver com som?

Vale parar um momento no próprio termo. Elegância não é sinônimo de luxo, nem de quantidade. A palavra vem do latim “eligere, que significa escolher, selecionar com critério.

Uma pessoa elegante não é a que usa mais acessórios, é a que sabe exatamente quais peças combinam entre si e quais devem ficar de fora. Com o som acontece a mesma lógica. Elegância sonora é a capacidade de escolher, entre inúmeras possibilidades sonoras, exatamente aquelas que fazem sentido para aquele momento, aquele público e aquela marca, deixando de fora tudo o que sobra.

Esse raciocínio se aproxima de um princípio consagrado no design de produtos por Dieter Rams, um dos designers mais influentes do séc. XX, que resumiu sua filosofia na máxima “menos, porém melhor”. Rams defendia que um bom projeto remove tudo o que é supérfluo até restar apenas o essencial.

No universo sonoro, essa disciplina aparece quando um logotipo sonoro de dois segundos comunica mais do que uma trilha de trinta segundos mal pensada, ou quando um restaurante sofisticado mantém o volume da música baixo o suficiente para permitir conversas, enquanto uma loja de roupas jovem escolhe um volume mais alto e uma batida mais animada.

Nenhuma das duas escolhas está errada. As duas são elegantes, porque cada uma escolheu o som certo para o seu próprio contexto, em vez de aplicar a mesma fórmula em qualquer lugar.

Existe ainda uma dimensão de proporção e ritmo dentro dessa elegância. Assim como uma frase bem escrita usa vírgulas e pontos para criar cadência, uma experiência sonora bem desenhada usa pausas e momentos de silêncio para dar ritmo à percepção de quem ouve.

Um compositor erudito sabe que uma fermata, uma pausa, carrega tanta expressividade quanto às notas mais altas da melodia. Marcas que entendem isso, não preenchem cada segundo de contato com o público com estímulos sonoros. Elas dosam, criam expectativa, suspense e usam o silêncio como um respiro estratégico dentro da experiência.

Elegância Sonora

Por que o som convence antes de a mente decidir?

O pesquisador Daniel Levitin, neurocientista e autor do livro “A Música no Cérebro”, descreve como uma peça musical ativa praticamente todas as regiões conhecidas do cérebro ao mesmo tempo, incluindo áreas ligadas à emoção, ao movimento e à memória de longo prazo.

Isso ajuda a explicar por que uma pessoa consegue esquecer o nome de um colega de trabalho, mas é capaz de cantarolar o jingle de um comercial que não ouve há anos.

A música se instala em camadas do cérebro que a linguagem racional dificilmente alcança sozinha.

Há também uma explicação fisiológica mais profunda. A teoria polivagal, desenvolvida pelo pesquisador Stephen Porges, mostra como o nervo vago regula a forma como o corpo interpreta sons como seguros ou ameaçadores, quase em tempo real e sem passar pelo pensamento consciente.

Um ambiente com trilha sonora agradável, literalmente relaxa o sistema nervoso de quem está ali dentro. Um ambiente com som agressivo ou mal planejado faz o oposto, mesmo que a pessoa não saiba explicar por quê.

É por isso que, segundo Julian Treasure, a música é considerada a forma mais poderosa de som que existe para alterar o nosso estado emocional, muito mais rápido do que qualquer texto ou imagem consegue fazer.

Elegância Sonora

Qual é a diferença entre tocar um som e desenhar uma experiência?

Pense em um restaurante que decide colocar uma playlist genérica, mainstream para preencher o silêncio. Compare com um restaurante que cria, junto de especialistas, uma curadoria sonora pensada para o ritmo das refeições, para o perfil do público e para os momentos do dia. O primeiro está apenas emitindo som. O segundo está desenhando experiências. Essa é, em essência, a diferença entre ruído e elegância sonora.

Isso é Music Branding estratégico, não apenas um conjunto de músicas escolhidas aleatoriamente. Isso é estratégia elegante. Uma boa analogia vem da alfaiataria. Um terno pronto, comprado de qualquer manequim, cobre o corpo. Um terno sob medida acompanha os movimentos de quem o usa, valoriza a postura e comunica algo sobre quem o veste antes mesmo de a pessoa abrir a boca.

O Sound Branding pede o mesmo cuidado. Cada elemento sonoro precisa ser costurado, ajustado e alinhado à identidade da marca e aplicada ao dia a dia da marca: Das lojas aos filmes publicitários, passando pela URA (Atendimento telefônico, vídeo nas redes sociais, experiência dos APP’s, portal, eventos (live marketing), podcasts ou qualquer canal que a marca entender estratégico para a sua comunicação.

Elegância Sonora

O que os números do varejo já provam?

Pesquisas sobre comportamento do consumidor em ambientes de varejo vêm mostrando, há décadas, que a música certa consegue alterar a percepção sobre a qualidade de um produto, aumentar o tempo de permanência das pessoas em uma loja e até mudar a velocidade com que elas circulam pelo espaço.

Uma trilha mais lenta tende a deixar o cliente mais à vontade para explorar as prateleiras. Uma trilha mais acelerada empurra o fluxo, o que pode ser útil em horários de pico, mas péssimo para quem quer criar uma experiência de descoberta e proporcionar calma para que o consumo ocorra.

Nada disso é acaso. É arquitetura sonora aplicada ao comportamento humano, e é exatamente esse tipo de decisão que separa uma trilha aleatória de uma estratégia de identidade sonora bem construída.

Elegância Sonora

Qual é o limite entre cumprir uma função e criar conexão?

Existem cases conhecidos, de marcas como Uber e TikTok, em que o som cumpre uma função clara, como confirmar um pagamento ou marcar a transição entre vídeos. Isso funciona bem para a tarefa que foi pensada, mas cumprir uma função é diferente de criar conexão emocional.

Somos seres emocionais, que buscam estímulos capazes de tocar alguma coisa por dentro, trazer prazer, curiosidade ou acolhimento. Um som pode ser perfeitamente funcional e, ainda assim, deixar a memória afetiva de quem ouviu completamente intocada.

Uma marca precisa muito mais do que um som que ajuda na navegação de um APP, ou confirmar um pagamento no final de uma operação. O som de uma marca precisa traduzir toda a sua complexidade. O sound design pode cumprir essa missão, sons incidentais que confirmam certas operações, porém, jamais representar a marca na sua comunicação.

É aí que mora o verdadeiro desafio do Sound Branding: criar uma trilha, um logotipo sonoro ou uma paisagem sonora que primeiro conecte, para só depois cumprir sua função prática. Quando essa ordem se inverte, o som vira decoração cara e a marca perde a chance de se tornar memorável.

Elegância Sonora

Elegância sonora como decisão estratégica

Vale reforçar um ponto essencial. Elegância sonora significa som coerente, aplicado com intenção, capaz de fazer sentido em cada ponto de contato com o público.

É a diferença entre colocar qualquer trilha em uma loja e desenhar uma paisagem sonora que aumenta o tempo de permanência das pessoas, melhora a percepção sobre a qualidade dos produtos e até influencia a disposição para gastar mais, exatamente como mostram estudos sobre comportamento do consumidor em ambientes com música ambiente bem calibrada.

Quando uma marca entende esse potencial e decide investir em desenhar sua experiência sonora com cuidado, ela começa a compor identidade. Uma identidade sonora bem construída é reconhecida, lembrada e, com o tempo, esperada pelo público. É isso que transforma uma marca comum em uma presença sonora inesquecível na vida das pessoas.

Se a sua marca ainda trata o som como um detalhe de última hora, esse é um bom momento para repensar essa escolha.

Zanna Sound

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Tendências do Sound Branding em 2027